O Núcleo de Memória se solidariza com a família, com os amigos, com o Departamento de Educação da PUC-Rio que perdeu um de seus grandes mestres e com os colegas e ex-alunos que ele, com seu sorriso sincero e suas palavras generosas, soube transformar em uma legião de amigos.
Que este momento de dor possa também registrar a alegria de toda a comunidade acadêmica por tê-lo na vida e na memória da Universidade.
Ver matérias no Jornal do Brasil e no Globo sobre a morte de Leandro Konder.
Mensagem da Profa. Tania Dauster (EDU):
"Meus caríssimos amigos e colegas do Departamento de Educação,
"Constrangida por uma fratura no pé e suas sequelas ainda limitadoras não pude comparecer ao velório de Leandro Konder, MESTRE de MESTRES, querido amigo. Quero partilhar com todos a minha dor e a minha tristeza vivida solitariamente, mas não menos intensa. Quero me irmanar com todos vocês neste sentimento coletivo. Quero dizer que estou junto no sofrimento do luto por Leandro e irmanada nesta enorme perda. A sua presença na nossa memória será para sempre.
"De coração, um abraço apertado para todos."
Mensagem do Prof. J. Landeira-Fernandez, Diretor do Departamento de Psicologia:
"Caros colegas,
"O Departamento de Psicologia se solidariza com toda a PUC-Rio, familiares e amigos do Prof. Leandro Konder, neste momento de dor."
Mensagem do Prof. Daniel Aarão Reis, Departamento de História da UFF:
"A inteligência do Leandro está em seus livros e artigos publicados, poderemos sempre visitá-la. Queria, porém, contar três episódios reveladores de sua personalidade:
". quando na Chefia do Departamento, em fins dos anos 1980, tive uma briga feia com ele, foi a única vez que o vi zangado, e ele tinha razão. Conseguimos nos despedir, no entanto, civilizadamente. Disse-me, então: 'Você está chefe, mas é um intelectual. Não se esqueça disso.'
". quando se despediu de nossos alunos, gravaram um pequeno filme (alguém o tem ainda?) do Leandro conversando com os alunos. No fim do bate-papo, mostrou a língua para todos, suscitando uma grande gargalhada. Nada mais informal e menos pomposo. Sua mensagem: Não se levem muito a sério.
". logo depois de sair da UFF, em homenagem, deram seu nome a uma sala de convívio dos professores. Quando soube, reagiu: 'Querem me matar? A gente só nomeia uma sala como homenagem a quem já partiu para o andar de cima'.
"Em todos estes episódios, o bom humor e a ironia. Marcas registradas da pessoa que ele foi. Sempre o recordarei assim. Bem-homorado, irônico, aberto para o diálogo."
Texto da Profa. Maria Clara Bingemer (TEO) publicado no Jornal do Brasil em 20/11/2014:
Leandro Konder ou a unanimidade inteligente
O grande escritor e humorista Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Há casos, porém, em que essa tese é solenemente desmentida. Refiro-me, por exemplo, ao querido Leandro Konder, filósofo brilhante, intelectual mais ainda, poço de doçura e amabilidade, que ensinava teologia aos teólogos, sem deixar jamais sua posição e sua visão da realidade inspiradas no marxismo.
Leandro era, sem dúvida, uma unanimidade. Não conheci ninguém que não o amasse, admirasse e dele apreciasse não apenas as virtudes intelectuais, mas também e sobretudo as humanas, que o faziam tão querido.
Intelectuais brilhantes e sérios, bons professores, excelentes pesquisadores, temos alguns, não muitos, mas enfim alguns. Seres humanos daquela estatura moral e afetiva são muito poucos.
Conheci Leandro nos idos dos anos 1990, quando trabalhava no Centro de Ação e Investigação Social dos jesuítas. Organizávamos seminários interdisciplinares extremamente instigantes, que juntavam pessoas das mais variadas áreas do saber para pensar e debater sobre temas candentes. Leandro era sempre convidado. E se era eu a organizadora, sempre e sem faltar uma vez. Comparecia alegre e cheio de disposição e verve.
Nesses fóruns, presenciamos situações inesperadas. Por exemplo, no seminário de Mística e Política, ele compartilhou a mesa com o ilustríssimo Pe. Henrique de Lima Vaz. Todos os presentes ficaram impressionados de ver como o Pe. Vaz falou bem sobre política. Mas, sobretudo, como e quanto Leandro falou com entusiasmo e conhecimento de mística.
Assim era esse doce filósofo marxista de olhos azuis, voz e maneiras ternas e amáveis com toda e qualquer pessoa que cruzasse seu caminho. Inesperada presença geradora de boas surpresas e instigador de ideias até então não pensadas. Homem de coerência absoluta com aquilo em que acreditava e era o norte de sua vida, assim também como coração aberto em permanência para acolher respeitosa e até carinhosamente qualquer diferença e toda diversidade.
Quando com ele cruzava no elevador da PUC, indo para o mesmo andar, não havia ninguém, - fosse ascensorista, aluno, colega, funcionário, professor, diretor ou reitor – que de sua boca não recebesse palavras de simpatia e gestos afetuosos. E tão afetivamente quanto tratava a todos, por todos era afetuosamente retribuído. Amado pelos alunos, pelos pares, pelas instâncias de cima, de baixo, vivia cercado de carinho, respeito e alegria.
Foi um choque para todos acompanhar o declínio de sua saúde. Sobretudo porque seu humor e amabilidade, suas maneiras feitas de doçura e proximidade continuavam iguais ao que sempre haviam sido. Seu corpo vergava sob o peso cruel da doença, mas seus lábios sorriam. Seu passo era mais lento, mas as dezenas de pessoas que o acompanhavam cresciam em número e em demonstrações de carinho. Sua voz tornava-se mais fraca, quase inaudível, mas os ouvidos dos que bebiam suas palavras, ajudados pelo microfone com que passou a dar aulas, abriram-se mais no desejo de ser ensinados por aquele inigualável pensador e pedagogo.
Jamais o ouvi queixar-se, expressar impaciência ou mau humor com o que lhe acontecia. Aquele homem belo, alto e admirado por todos foi se tornando sombra de si mesmo em termos físicos. Mas uma coisa o Parkinson não conseguiu atingir e minar: sua integridade moral, sua alegria interior, seu amor pelas pessoas e a maneira doce que tinha de tratá-las.
Aos poucos foi desaparecendo dos corredores da PUC, comparecendo menos à sala de aula, empunhando primeiramente uma bengala, depois sentado em uma cadeira de rodas. Sempre cercado da presença jovem dos alunos e do afeto dos colegas, sempre com o mesmo sorriso nos lábios e disposto a fazer brincadeiras com todos e cada um.
Apesar disso, era bom saber que continuava em vida, assim como dói muito saber que já se foi e que não se encontra mais entre nós, na história que ele tanto estudou e pensou. Antes de morrer, disse à sua esposa que gostaria de uma missa de sétimo dia na PUC-Rio, por ter sido o lugar onde sempre pôde falar com liberdade. Seu desejo foi satisfeito e muitíssimas pessoas encheram a igreja da universidade, rememorando esse grande filósofo, essa doce figura humana, esse marxista cheio de esperança, esse ateu que apreciava a mística e a liturgia.
Descansa em paz, amigo. Esteja onde você estiver, tenho certeza de que estará dizendo algo amável e afetuoso a alguém. Se você continua vivo fora da história, assim como eu creio que está, deve estar encantando gente em outras paragens, como sempre o fez por aqui. Procuraremos ser fieis ao que você nos ensinou: o amor à verdade e à liberdade, a paixão por pensar e conhecer, a doçura como melhor método para estabelecer relações consistentes entre pessoas.
Artigo de Francisco Daudt da Veiga, publicado no jornal Folha de São Paulo de quarta-feira, 26/11/2014:
Um comunista gentil
Só não era um aristocrata porque não pretendia comandar nada (aristocracia significa o comando dos melhores), nem carro dirigia, mas foi um dos melhores seres humanos que tive a ventura de conhecer. Há coisas muito boas que vêm com o casamento, meus dois filhos encabeçam a lista, claro, mas esse amigo da mãe deles seguramente não está longe. Entre 1986 e 1989 foi nossa rotina passar a noite de sábado imersos na atmosfera inteligente e acolhedora de sua casa, aberta aos amigos comunistas, entre jornalistas e professores, todos a debater com a costumeira ferocidade, enquanto ele aguardava uma brecha para intervir com uma palavra sábia de lucidez desapaixonada. Era interrompido, claro, e se calava, esperando uma nova chance de ser ouvido. Eu ali, um estranho no ninho, democrata liberal que desistiu de se meter na conversa depois que ousei dizer que o PRI (Partido Republicano Institucional do México, que já se mantinha no poder havia sessenta anos) era uma ditadura disfarçada, só para ser rechaçado por um jornalista que me calou para sempre com um “Não é!” furibundo. Tornado espectador, aprendi muito sobre dialética, da rasa e da complexa.
Meu comunista querido era o oposto da definição que José Serra fez do PT, “o bolchevismo sem utopia”, diabo de frase que me tomou uns minutos para entender (“o poder totalitário sem idealismo”). Ele era um utópico sem tirania. Seu ídolo era Charles Fourier. Já havia se afastado do “socialismo real” quando Khrushchev denunciou Stalin e seus “malfeitos”. Migrou para o eurocomunismo. Aderiu ao PT até o mensalão vir à tona, quando foi para o PSOL. Ainda bem que morreu sem se dar conta do petrolão…
Não santificava o proletariado, o que ficou claro quando me mostrou orgulhoso um bilhete crítico de seu filho de cinco anos sobre a empregada: “Pai, a Creuza é bura”, e rimos juntos da inteligência do menino, a despeito do “burra” com um “r” só (ou por isso também).
Foi responsável pelo primeiro artigo que escrevi, que ele fez publicar na revista do partidão, “Novos Rumos”, vejam vocês! Eu havia argumentado que a AIDS era talvez a primeira praga que derrotava a tendência histórica de arranjar culpados para explicá-la (no final dos anos 1980 já se sabia que ela não era um castigo contra os gays). “Você tem que escrever isso”, incentivou-me. Foi assim que partejou este escriba.
Partilhava comigo a desdita dos professores que odeiam os olhos vácuos dos alunos. “Francisco, eu sou uma prostituta, faço qualquer coisa em classe para despertar o brilho neles”. Há inúmeros depoimentos do fascínio que suas aulas despertavam.
Revisou com carinho meu primeiro livro, e fez-me um elogio inesquecível: “Você escreveu a versão psicanalítica de ‘A democracia como valor universal’”. Como se não bastasse, enviou um exemplar a seu amigo Paulo Francis, que me deixou nas nuvens ao escrever em sua coluna, “afinal um psicanalista que escreve limpo”.
Há um verbete no dicionário feito para ele: “indivíduo cujos atos e maneiras demonstram fidalguia e distinção de sentimentos; elegante; garboso; formoso; bem apessoado”. O verbete: gentleman.

