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Falecimento de Luiz Paulo Horta

02/08/2013

Morreu na manhã de sábado, dia 02/08/2013, poucos dias antes de completar 70 anos, o escritor e jornalista Luiz Paulo Horta, colunista do jornal O Globo, membro da Academia Brasileira de Música etitular da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Luiz Paulo publicou livros sobre música (Caderno de música, Sete noites com os clássicos, Música das esferas) e sobre religião (A procura de um cânone, A Bíblia: um diário de leitura, foi crítico de música e editorialista de O Globo, depois de trabalhar por mais de duas décadas no Jornal do Brasil. Foi o fundador da seção de música do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Em 1962, começou o curso de Direito na PUC-Rio, mas abandonou a faculdade para dedicar-se ao jornalismo. 

Foi um grande colaborador da PUC-Rio.  Participava intensamente das atividades promovidas pela Cátedra Carlo Maria Martini, do Decanato do CTCH e dirigiu um grupo de estudos bíblicos no Centro Loyola. Foi membro do Conselho de Desenvolvimento da PUC-Rio e da Comissão Cultural da Arquidiocese do Rio.  Recebeu em 2000 da PUC-Rio o Prêmio Padre Ávila de Ética no Jornalismo.

Sua última publicação foi a série de artigos diários em O Globo em que comentou a recente visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro e a JMJ, cujos links reproduzimos abaixo: 

1. O Papa peregrino – 20/07/2013.  Luiz Paulo Horta

2. A procura de um cânone – 21/07/2013. Luiz Paulo Horta

3. A hora do encontro – 23/07/2013. Luiz Paulo Horta

4. O que é ser Papa – 24/07/2013. Luiz Paulo Horta

5. Uma visita à Aparecida – 25/07/2013. Luiz Paulo Horta

6. Um anti-Ratzinger? - 26/07/2013. Luiz Paulo Horta

7. Pensamentos franciscanos - 27/07/2013. Luiz Paulo Horta

8. O Estado laico - 28/07/2013. Luiz Paulo Horta

9. Adeus à Jornada - 29/07/2013. Luiz Paulo Horta

10. É no presente que se joga a eternidade - 30/07/2013. Luiz Paulo Horta

:: Artigo de D. Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro e Grão –Chanceler da PUC-Rio, publicado em O Globo de 03/08/2013.

- A experiência partilhada dos valores

:: Artigo do Prof. Pe. Josafá Carlos de Siqueira S.J., Reitor da PUC-Rio, publicado no PUC Urgente de 12/08/2013.

O humanismo de um imortal

Fomos surpreendidos pela passagem para a eternidade de um humanista que voou em direção à verdadeira imortalidade da existência. Pelo seu aguçado humanismo, que o conduziu ao grau de imortal nesta vida transitória, Luiz Paulo Horta sempre manteve uma abertura para a fé que o levava a pensar na imortalidade de uma vida que se abre para Deus. Sedento pelos valores que humanizam as pessoas, colocando-as em comunhão mais profunda com o Sentido Absoluto da vida, Luiz Paulo soube viver e testemunhar as suas convicções mais profundas, sem ter medo de expressá-las publicamente. A música, a literatura e a fé estavam sempre presente em seus escritos, diálogos e entrevistas, iluminando suas inspirações e revelando a riqueza de um humanismo tão necessário para o mundo em que vivemos. A sabedoria e a docilidade no trato humano era um traço que fazia parte do seu modo de existir, sempre buscando respostas na fé e na razão para tentar entender a grandeza e a profundidade do mistério que envolve a dimensão imanente e transcendente do ser humano. Com um olhar profundo e um sorriso nos lábios, irradiava espontaneamente uma bondade contagiante de alguém que cultivava interiormente um depositário amoroso, sempre aberto para acolher e respeitar a diversidade de opiniões, mesmo aquelas contrárias às suas convicções mais profundas.

Os contatos, diálogos e encontros que tivemos oportunidade de compartilhar com Luiz Paulo Horta na PUC-Rio nos proporcionaram uma visão de um homem interiormente humanizado e espiritualmente sedento de buscas e respostas dos verdadeiros valores que norteiam a existência humana. Esperamos que, diante da visão do mistério eterno e definitivo, ele possa encontrar as respostas para as suas incansáveis buscas terrenais, responsáveis por transformá-lo num humanista cristão para os nossos dias. Perdemos um imortal da ABL, um Membro do Conselho de Desenvolvimento da PUC-Rio e um cristão e católico convicto, mas temos a certeza na fé que o seu testemunho de vida será inspirador para todos os que desejam um mundo mais humano, fraterno e solidário.

:: Artigo da professora Maria Clara Bingemer , do Departamento de Teologia, publicado em O Globo de 03/08/2013.

Intelectual brilhante, terno e generoso

“Tudo em você respirava essa ternura dispensada a todos, dos simples aos importantes”

Querido amigo, amado irmão, como assim? Partir dessa maneira, tão repentina? Falávamos ontem ao telefone preparando sua festa de 70 anos! Rimos, combinamos de almoçar... E acordo com essa notícia que ainda me dói na cabeça e no peito. Tantas coisas a preparar, a sonhar, a projetar... Como será possível sem você?

O que posso dizer a você e sobre você neste momento, com tortas letras e emocionadas palavras? Para mim e muitos você foi o intelectual brilhante, o leitor voraz e erudito, o escritor cuidadoso, o acadêmico irretocável... Mas sobretudo a encarnação da ternura de Deus. Tudo em você respirava essa ternura dispensada a todos, dos mais simples aos mais importantes. A singeleza terna de seu olhar, de seu falar... Tudo transmitia esta verdade na qual acreditamos e que agora você conhece: Deus é amor!

Essa ternura que conseguia aproximar-se sem se impor nem fazer peso aparecia também em seus escritos, nas análises do grande jornalista que você foi. Fosse o tema música clássica, cinema, política ou religião, além do profundo conhecimento que era o seu, sempre brilhava a doçura.

Lembro-me do dia em que você veio a minha casa trazer-me seu livro “A Bíblia: Um diário de leitura”. Eu havia acompanhado sua inspiração, gestação e parto. Alegrei-me tanto! E mais ainda com a primeira edição esgotada, quatro mil exemplares vendidos em um mês. E a Bíblia voltando à intimidade de muitos corações através de sua escrita terna e amorosa.

Como você amou a Palavra de Deus, amigo tão querido! Como se comprometeu em seu conhecimento e difusão! Como fez com que outros e outras amassem mais ainda essa Palavra que para você não era letra morta, mas Espírito e vida!

Sua última obra foi a Jornada Mundial da Juventude. Ali seu coração generoso entregou suas últimas reservas de força. Acompanhar o Papa Francisco, seguir-lhe os passos surpreendentes, interpretar palavras que eletrizavam milhões de pessoas, essa foi uma tarefa gigantesca que você assumiu com a galhardia e a ternura de sempre. Ontem você me confessava que estava exausto. Não houve tempo para descansar. Você se foi. Discreto como viveu.

Até breve, amigo. Você sabe que diante do Senhor um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia.

Luiz Paulo Horta. Fotógrafo Jorge William, Agência O Globo, 2007.
Luiz Paulo Horta. Fotógrafo Jorge William, Agência O Globo, 2007.